Algumas horas atrás, enquanto amaldiçoava minha moto - a "Dama da Noite", como a chamo - por mais uma vez me deixar na mão no meio da rua, observava a noite, fumando e esperando por uma salvação impossivel. Talvez um amigo que estivesse passando por aquelas bandas. Ou um dono de guincho com bom coração e dinheiro de sobra. Ou ainda, nos meus sonhos mais loucos, uma ruiva tatuada no busto, com uma metralhadora na mão esquerda e uma garrafa de Jackie Daniels na mão direita. A destruidora de casamentos num 4x4 envenenado.

Óbviamente, nenhum desses apareceu. Me perdia nessas hipóteses noite adentro. E me divertia com isso. Olhava ali pros velhos no buteco, para os mendigos girando e girando, para as motos correndo, as crianças gritando... uma maravilha dançante nas ruas do centro da cidade. Uma ode grotesca em homenagem a quase vida. Comecei a rir.
Quando comecei a rir, reparei uma garota surgindo ao meu lado. Ela também ria. Tinha óculos de plástico branco e uma saia xadrez. Bem do tipo que odeio. Não a roupa, mas a pessoa. Era bem o perfil que odiava. Feliz, sem motivos, descolada, sem razões. Quando olhei nos olhos dela, meu sorriso desapareceu. Os mendigos estavam caídos no chão e o boteco, fechado. Os gritos pararam. Só a risada ecoava. Ela se sentou ao meu lado. Perguntou porque eu tava rindo. Falei que não importava. Ela insistiu. Me levantei e tentei fazer a moto pegar. Acho que ela entendeu. Fechou a cara e se levantou.
Mas ai que entra o incrível acaso. Ao invés de me livrar da pirralha de óculos plásticos, ela arregaçou a camisa - igualmente xadrez - e se sentou ao lado da moto. Arregalei os olhos e a empurrei, num "o que diabos você pensa que tá fazendo, garota?" que ela transformou numa risada e um "que se foda". Achei interessante. Garota esperta.
Ela então começou a mexer nos cabos da bateria, e fuçava e chafurdava naquele emaranhado de formigas e graxa. Alguns estalos, faíscas e gritinhos saiam aqui e ali. Eu ria e olhava toda a cena como a mais insólita das possibilidades. Ou aquela mocoronga estava sabotando minha moto, numa espécie de complô contra o James Bond, ou ela realmente sabia o que estava fazendo. Não sou nenhum agente secreto, mas... nunca se sabe. Acendi mais um e fui até o outro lado da rua, numa distribuidora. Comprei duas latas e dei uma a ela. Ela não bebia. Fiquei chocado.
Perguntei o nome dela. Se chamava Lúcia. Menti meu nome pra ela. Ela disse que eu estava mentindo. Confirmei. Ela riu e continuou fuçando. A moto começava a grunir. Eu grunia junto, de impaciencia, e virava a outra lata. Quente. As crianças voltaram a gritar. O boteco reabriu. E os mendigos voltavam a girar. Pareciam dervixes do oriente médio. A moto então reviveu, numa reencarnação "frankensteinica" assustadora. A garota caiu para trás, com um baita choque. Tomou a cerveja da minha mão e deu um gole. Falei meu nome verdadeiro. Ela levantou a saia e me mostrou as pernas. Agradeci. Ela sorriu e foi embora. Galopei a Dama da Noite no campo listrado.





