quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Desfecho

As coisas andavam bem tranqüilas para que pudesse reclamar de algo. Até escrever andava difícil. Não acontecia nada há dias. Nada mesmo. Só o calor seco típico do centro-oeste brasileiro. As mesmas pessoas. Os mesmos pensamentos. Os mesmos sonhos. Tava realmente incomodado com isso. Coisas que antes tinham acabado caindo na rotina ficaram insuportáveis.

Decidi dar uma mudada.

Acordei mandando tudo á merda. Foi engraçado. As pessoas começaram a achar que estava com dificuldades. Que meu cachorro tinha morrido. Que estava com câncer. Que fora deserdado. Que descobrira um parente pedófilo. Que tivera minha conta bancária estuprada. Que minha namorada - que nem tenho - tinha me traído com um africano pé-de-mesa… Enfim. Nada disso. Apenas desterrava alguns pensamentos antigos, tentando quebrar toda aquela coisa que me mantinha amarrado e estático nas mesmas coisas do passado. Mandei quem queria ao inferno, arruinei sonhos, fiz merda propositadamente, dancei pelado em cima de uma cartola azul, me afastei de pessoas que gostava, ri da dona Morte e seu decote irresistível. E achei incrível.

Desisiti de te agradar. Não vale a pena. Se não tem resposta, sentido ou vislumbre, que deixe morrer. A cova é menos fria assim. Esse era meu pensamento. E esse pensamento perdurou o dia todo. E o dia seguinte. E o depois dele. Era o maioral. Dono da minha própria vida, de novo. Com uma botina enfiada no rabo dos meus antigos carcereiros, fui abrindo caminho até a porta da masmorra. E quando cheguei lá…

Como todo idiota humano sentimental, acabei me arrependendo no fim do dia. E ai que a merda começou a feder. Mal dormi naquela noite. Pensei que tinha ofendido as pessoas certas, e eu era o errado na história. E a novela tendo um desfecho deprê e as dondocas e empregadas ligavam pra emissora reclamando. Os mocinhos e mocinhas estavam mortos. O vilão largou o ramo e virou padeiro. E o coadjuvante tomava as decisões e a frente do roteiro.

Na manhã seguinte, tentei me retratar com alguns. Descobri que já era tarde. Mandaram-me pastar. Pra não dizer o que realmente foi dito. Arrependimento não adianta nada. Jogaram isso na minha cara. O assunto morreu. Resolvi então assumir mesmo, mandar tudo se lascar. E até hoje tenho mantido minha postura. É duro, mas pelo menos, todos se livraram. Pode não ser o final da novela esperado. Pode até não ter dado audiência. No entanto, cada um segue sua vida. Espero apenas que, mais tranqüilos.

Mais tristes, talvez, mas mais tranqüilos.

Naquela tarde, Jackie morria num hospital inglês. Não precisa se perguntar quem era Jackie. Não vai achar no Google. Não era ninguém. Era uma das pessoas mais interessantes que já conheci.

7 COMENTE AQUI!:

Dunathan disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Dunathan disse...

Quem será que fala ?

Spike! disse...

Aquela coisinha agoniante dentro da cabeça.

Anna Gomes disse...

Estou pasma com seu texto. Muito bom é pouco!

Spike! disse...

^^

Minha humildade falsificada me proíbe de concordar, anuska!

Raphael disse...

Cara... cada dia eu me espanto mais com sua lucidez e sua loucura.
Ou yeah!

Audaz disse...

Muito bom!!!
"Pensei que tinha ofendido as pessoas certas, e eu era o errado na história."
Ab!

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